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O Exército do Lula tornou-se uma das principais iniciativas de mobilização digital da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições de 2026. Coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), o canal de WhatsApp ultrapassou 10 milhões de seguidores e ajudou a organizar uma ampla rede de compartilhamento de conteúdos políticos. A mobilização ganhou força justamente quando Lula precisava reverter a vantagem conquistada por Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno.
Em 25 de outubro, Lula conquistou a reeleição com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a diferença entre os candidatos superou 4,4 milhões de votos.
A vitória ocorreu após uma intensa disputa nas redes sociais, marcada pela participação de influenciadores, militantes e apoiadores das duas candidaturas. Entretanto, embora o crescimento do Exército do Lula tenha coincidido com a recuperação eleitoral do presidente, ainda não existem evidências suficientes para atribuir exclusivamente ao movimento o resultado das urnas.
Como o Exército do Lula chegou a 10 milhões de seguidores
A expansão do Exército do Lula começou a ganhar velocidade depois do primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Embora o canal de WhatsApp existisse desde abril, sua transformação em uma central de mobilização eleitoral ocorreu após a campanha petista identificar dificuldades na comunicação digital.
De acordo com informações publicadas pelo Congresso em Foco, o canal reunia aproximadamente 50 mil seguidores no início do segundo turno. Em 7 de outubro, já havia ultrapassado 2 milhões, impulsionado também por um vídeo no qual Lula incentivava seus apoiadores a participar da iniciativa.
O crescimento continuou nos dias seguintes. Em 13 de outubro, a mobilização alcançou 4 milhões de seguidores. No dia 21, superou 7 milhões. Finalmente, em 23 de outubro, dois dias antes da eleição, o canal atingiu a marca de 10 milhões de inscritos.
A evolução mostrou a capacidade de reunir milhões de pessoas em torno de uma estratégia digital coordenada. Entretanto, o número de seguidores não representa necessariamente a quantidade de eleitores que mudaram de voto por influência das publicações.
Ainda assim, a velocidade de crescimento colocou a iniciativa entre os acontecimentos mais relevantes da comunicação política brasileira durante a reta final das eleições.
Como funcionavam as missões digitais coordenadas por André Janones
O diferencial do Exército do Lula estava na organização de seus participantes. Em vez de depender exclusivamente das publicações realizadas pelos perfis oficiais da campanha, André Janones utilizava o WhatsApp para distribuir conteúdos e orientar ações coletivas.
As atividades receberam o nome de missões digitais. Entre elas estavam o compartilhamento de vídeos, a divulgação de mensagens políticas, a participação em campanhas de hashtags e a ampliação do engajamento nas redes sociais.
A estratégia buscava transformar seguidores em multiplicadores de conteúdo. Dessa forma, uma publicação poderia alcançar pessoas que não acompanhavam diretamente os perfis de Lula ou de seus aliados.
Segundo reportagem do JOTA, Janones assumiu a coordenação dessas atividades e passou a enviar orientações frequentes aos participantes. Durante um domingo de debate eleitoral, o deputado chegou a publicar centenas de mensagens no canal.
O papel dos algoritmos na mobilização
Parte da estratégia dependia do funcionamento dos algoritmos das plataformas digitais. Curtidas, comentários, compartilhamentos e tempo de visualização podem influenciar a distribuição dos conteúdos, embora cada rede utilize critérios próprios.
Consequentemente, a participação coordenada dos apoiadores poderia ampliar a visibilidade de determinadas publicações.
Isso não significa, porém, que qualquer interação produza automaticamente maior alcance. As plataformas utilizam diversos sinais para selecionar o conteúdo exibido aos usuários.
O Exército do Lula explorou esse ambiente para estimular a circulação de mensagens favoráveis à candidatura, especialmente durante as três semanas que separaram os dois turnos.
A derrota no primeiro turno provocou uma mudança na campanha
A reação digital do PT ocorreu depois de um resultado eleitoral desfavorável. Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos. Lula recebeu 45,16%, ficando aproximadamente 2,2 milhões de votos atrás do adversário.
A situação exigia uma recuperação expressiva em apenas três semanas. Por isso, dirigentes e aliados do presidente defenderam mudanças na comunicação, incluindo maior presença de influenciadores e uma participação mais direta do candidato nas plataformas digitais.
Em reportagem publicada pelo g1 em 9 de outubro, o secretário nacional de Comunicação do PT, Jilmar Tatto, reconheceu uma mudança de estratégia. A campanha passou a reunir influenciadores e jovens políticos em Brasília para coordenar iniciativas nas redes sociais.
Lula também começou a gravar vídeos em formatos mais informais, como publicações feitas diretamente para a câmera. A intenção era aproximar sua comunicação da linguagem utilizada pelos usuários das plataformas.
O Exército do Lula integrou esse movimento, mas não foi sua única ferramenta. A campanha também utilizou páginas de compartilhamento, plataformas de divulgação e ações presenciais.
Assim, a recuperação eleitoral aconteceu durante uma reorganização mais ampla, que combinou comunicação digital, mobilização de apoiadores e tentativas de alcançar eleitores fora da base tradicional do PT.
A virada de Lula nas urnas foi expressiva
Os resultados oficiais mostram a dimensão da recuperação eleitoral de Lula. Depois de perder o primeiro turno, o presidente terminou a votação de 25 de outubro com uma vantagem superior a 4,4 milhões de votos.
O crescimento também aparece quando se compara a votação absoluta dos dois turnos.
Lula passou de aproximadamente 53,9 milhões para 64,3 milhões de votos, um aumento de cerca de 10,4 milhões. Flávio Bolsonaro, por sua vez, avançou de 56,1 milhões para 59,8 milhões, conquistando aproximadamente 3,7 milhões de votos adicionais.
Segundo levantamento divulgado pela Agência Brasil em 26 de outubro, Lula ampliou sua votação em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Minas Gerais apresentou um resultado particularmente relevante, pois foi o único estado onde o presidente conseguiu inverter a liderança que Flávio havia conquistado no primeiro turno.
Entretanto, a recuperação não ocorreu apenas pela transferência de votos entre candidatos.
A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo. Além disso, houve redução dos votos brancos e nulos, ampliando o número de votos válidos disponíveis.
Conforme análise publicada pelo UOL, Lula conquistou aproximadamente três de cada quatro votos adicionais contabilizados na comparação entre os turnos, considerando o crescimento da participação e a redistribuição da votação dos demais candidatos.
Esse resultado ajuda a compreender a virada, embora os números agregados não permitam identificar individualmente quais eleitores mudaram suas escolhas.
O Exército do Lula foi decisivo para a vitória?
A relação entre mobilização digital e resultado eleitoral constitui a principal questão sobre o Exército do Lula.
O crescimento do canal coincidiu com a recuperação de Lula nas pesquisas e, posteriormente, nas urnas. Além disso, sua organização permitiu distribuir conteúdos e estimular a participação de milhões de seguidores.
Esses elementos demonstram a relevância da iniciativa na estratégia de comunicação. Contudo, não comprovam que ela tenha determinado o resultado da eleição.
Para estabelecer uma relação direta de causa e efeito, seria necessário investigar quantos eleitores receberam as mensagens, como interpretaram os conteúdos e se alteraram seu comportamento político após esse contato.
Também seria necessário separar a influência das redes sociais de outros fatores, como debates, propostas de governo, rejeição aos candidatos, mobilização territorial e participação de eleitores que haviam se abstido.
Até 28 de outubro de 2026, as evidências disponíveis não permitem quantificar com segurança quantos votos o Exército do Lula acrescentou à candidatura vencedora.
A atuação coordenada pode ter contribuído para ampliar a circulação de mensagens e incentivar a participação eleitoral. Entretanto, audiência digital e conversão de votos são indicadores diferentes.
Portanto, a interpretação mais consistente é que o movimento representou uma peça importante da recuperação política de Lula, sem que seja possível atribuir a ele, isoladamente, a vitória presidencial.
A disputa judicial colocou o Exército do Lula no centro das atenções
O crescimento do canal também provocou questionamentos na Justiça Eleitoral.
Em 11 de outubro, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão da iniciativa após uma solicitação da campanha de Flávio Bolsonaro.
A candidatura do PL acusava o movimento de promover ações coordenadas de divulgação de conteúdos falsos e de utilizar mecanismos artificiais de impulsionamento.
O caso passou por decisões conflitantes dentro do tribunal. Posteriormente, em 13 de outubro, a campanha petista registrou formalmente o Exército do Lula como canal de propaganda eleitoral, atendendo a uma exigência para regularizar seu funcionamento.
Uma análise técnica do TSE, divulgada em 12 de outubro, não identificou, nas publicações examinadas entre 2 e 11 de outubro, a reprodução de determinadas alegações que a Justiça Eleitoral havia considerado irregulares.
Essa conclusão, entretanto, dizia respeito ao material analisado naquele período e não representava uma aprovação irrestrita de todas as atividades do canal.
Procuradoria defendeu a mobilização coletiva
Em 23 de outubro, o ministro Floriano de Azevedo Marques determinou medidas para impedir novas restrições administrativas individuais ao canal, diante da disputa sobre a competência para decidir sua suspensão.
No dia seguinte, a Procuradoria-Geral Eleitoral manifestou-se pela manutenção da iniciativa. O órgão argumentou que a organização coletiva de eleitores e o compartilhamento simultâneo de publicações não representam, por si só, práticas ilícitas.
Por outro lado, a Procuradoria reconheceu a necessidade de esclarecer questões específicas relacionadas a anúncios pagos que direcionavam usuários ao canal.
O episódio revelou uma questão relevante para futuras eleições: como diferenciar a mobilização política legítima de práticas digitais que possam violar a legislação eleitoral.
Flávio Bolsonaro também mobilizou apoiadores nas redes sociais
A estratégia digital não ficou restrita à campanha petista. Aliados de Flávio Bolsonaro organizaram uma iniciativa semelhante, denominada Tropa do Flávio, para distribuir conteúdos e incentivar a participação de seus seguidores.
O canal também utilizava mensagens, vídeos e convocações para ampliar a presença do candidato do PL nas plataformas.
Durante a campanha, parlamentares e influenciadores ligados ao bolsonarismo participaram da divulgação da iniciativa. Entre eles estavam Gustavo Gayer e Nikolas Ferreira, que utilizaram suas redes para contestar publicações favoráveis a Lula.
Além disso, as duas candidaturas trocaram acusações relacionadas à disseminação de informações falsas e ao comportamento das plataformas digitais. Essas acusações precisam ser diferenciadas de irregularidades efetivamente comprovadas.
A competição mostrou que a organização de comunidades digitais passou a ocupar uma posição estratégica na disputa presidencial.
Enquanto o Exército do Lula buscava ampliar a participação de apoiadores do presidente, a mobilização adversária procurava preservar a força eleitoral de Flávio Bolsonaro e responder às publicações petistas.
Dessa maneira, o segundo turno de 2026 também se tornou uma disputa pela capacidade de organizar seguidores, produzir conteúdos e distribuir mensagens em diferentes redes.
A vitória presidencial não garantiu maioria no Congresso
Embora Lula tenha conquistado a reeleição, a composição do Congresso Nacional apresenta dificuldades para o próximo mandato.
Nas eleições legislativas de 4 de outubro, o PL conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados, tornando-se a maior bancada da próxima legislatura. O partido ampliou sua representação em 24 parlamentares na comparação com 2022.
A federação formada por PT, PCdoB e PV elegeu 88 deputados, ocupando a segunda posição. Já a federação União Progressista, formada por União Brasil e PP, conquistou 87 vagas.
Os números divulgados pela Agência Senado mostram que o PL terá aproximadamente 23,6% das 513 cadeiras da Câmara. Portanto, embora seja a maior força partidária, não possui maioria absoluta sozinho.
Essa configuração exigirá negociações para a aprovação de projetos e medidas do Executivo. Além disso, partidos de centro poderão exercer influência relevante sobre votações e alianças parlamentares.
A atuação do Exército do Lula também levantou questionamentos sobre a diferença entre a mobilização presidencial e a disputa proporcional.
O movimento ganhou maior projeção depois do primeiro turno, quando a eleição dos deputados federais já estava definida. Assim, sua expansão não poderia alterar diretamente a distribuição de cadeiras estabelecida naquela votação.
A hipótese de que uma mobilização digital semelhante teria produzido outra composição do Congresso permanece especulativa. Não existem dados suficientes para determinar quantos parlamentares teriam sido eleitos em um cenário diferente.
A repercussão internacional ampliou a visibilidade da eleição
A vitória de Lula também chamou a atenção de veículos internacionais, especialmente pelo caráter incomum da recuperação entre os dois turnos.
Em 26 de outubro, a Agência Brasil registrou a repercussão do resultado em jornais europeus e asiáticos. O periódico francês Le Monde destacou a mobilização nas ruas e nas redes sociais como um elemento relevante da virada eleitoral.
A cobertura internacional demonstrou que a disputa brasileira ultrapassou as fronteiras nacionais. Entretanto, o interesse de veículos estrangeiros não comprova a participação decisiva de uma mobilização internacional no resultado.
Da mesma forma, a comparação com eleições de outros países exige cautela. Embora movimentos digitais utilizem estratégias semelhantes, cada disputa apresenta regras eleitorais, características sociais e condições políticas próprias.
O crescimento do Exército do Lula poderá servir de referência para futuras estratégias de comunicação. Contudo, ainda não é possível afirmar que seu modelo será reproduzido internacionalmente ou produzirá resultados equivalentes.
A experiência brasileira oferece, sobretudo, um exemplo de organização de comunidades digitais durante uma campanha presidencial altamente competitiva.
O que o Exército do Lula representa para o futuro da comunicação política
A eleição de 2026 reforçou o papel da mobilização digital na organização de apoiadores e na circulação de mensagens políticas.
O Exército do Lula mostrou como um canal de comunicação pode reunir milhões de seguidores em poucas semanas e estabelecer uma estrutura de participação coletiva.
Entretanto, seu crescimento também evidenciou desafios relacionados à transparência da propaganda, à verificação de conteúdos e aos limites das ações coordenadas nas plataformas digitais.
Para campanhas futuras, a experiência indica que a presença nas redes sociais não depende apenas do número de seguidores dos candidatos. A capacidade de organizar comunidades, produzir conteúdos relevantes e manter a participação dos apoiadores também passou a integrar a estratégia eleitoral.
Ao mesmo tempo, a atuação digital precisa respeitar a legislação e os direitos dos diferentes grupos políticos.
O resultado de 25 de outubro confirmou a recuperação eleitoral de Lula e demonstrou a importância da mobilização durante o segundo turno. A contribuição exata do Exército do Lula, porém, ainda depende de estudos capazes de separar sua influência de outros fatores que determinaram o comportamento dos eleitores.
O movimento ganhou dimensão nacional, participou da reorganização digital da campanha vencedora e deixou uma experiência relevante para a comunicação política brasileira. Seu peso definitivo sobre o resultado das urnas, contudo, permanece uma questão aberta.
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